Recordo-me da minha terra. Mas não com
saudade. Sem culpa, apesar de ser Benfica.
Árida e estéril de bons sítios, daqueles
amplos e intemporais, onde as pessoas orbitam e criam. Trilhada de fileiras de
prédios. Mea culpa, é de mim que não tenho saudades.
Criança vil de tão insignificante.
Cultivou medos e receios que lhe fissuraram o carácter.
Lembro-me dos prédios altos, de 8
andares, dos recortes de sol às diferentes horas de cada estação.
Da forma como a luz penetrava recta
pelos intervalos de uma divisória atijolada e parecia sustentar errantes
partículas de pó pela manhã.
O mesmo pássaro pipilava com exactidão a
mesma melancólica melodia, na aurora e no crepúsculo.
Carros por toda a parte, da minha janela
lojas ladeadas de diferentes metiérs, café, drogaria, vestuário, talho,
desporto, clínica veterinária, fotógrafo, ginásio, oficina. Nestes dias
conjecturo agências bancárias e imobiliárias, como de resto por toda a parte.
Lembro-me da feira que se realizava em
frente, várias vezes por semana, de manhã, num pequeno descampado. Como se
chamava mesmo aquela senhora gorda de óculos ?... lembro-me de fornecer o caldo
verde, cortado na hora, e outros hortícolas. As pessoas circulavam com trolleys
carregados.
Lembro-me da praça, essa arena
monstruosa e frenética. Da estrada de Benfica, o vislumbre dessa outra casa que
era a igreja. Mais à frente ficava a pediatra, depois de uma casa de gelados
que nunca percebi se fechou, fui lá duas vezes mas sempre ficou no meu
imaginário, o meu primeiro gelado de copo e colher. Ao lado a fiel churrascaria
de frangos, pouco à frente a barbearia onde cortei pela 1ª vez o cabelo. Ainda
antes da pediatra.
Ramalhete de toldos e nomes cujo arranjo
ainda trago impresso na memória.
Papelarias, lojas de ferragens,
cafetaria e têxteis. Lojas escuras que nunca entendi.
Muita coisa que não entendia nem
tentava, delegava para os adultos.
Lá à frente, a sapataria Guimarães.
Mesmo perto da paragem onde recebi o 1º beijo apaixonado...
Incrível como gostava dela. Pensei que
não chegava a casa vivo. Sempre acreditei que quando Deus nos dá algo que queremos
muito somos cobrados com juros.
Era um preço justo pelo o quanto eu
queria esse beijo.
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