domingo, 20 de janeiro de 2013


Recordo-me da minha terra. Mas não com saudade. Sem culpa, apesar de ser Benfica. 

Árida e estéril de bons sítios, daqueles amplos e intemporais, onde as pessoas orbitam e criam. Trilhada de fileiras de prédios. Mea culpa, é de mim que não tenho saudades.

Criança vil de tão insignificante. Cultivou medos e receios que lhe fissuraram o carácter. 

Lembro-me dos prédios altos, de 8 andares, dos recortes de sol às diferentes horas de cada estação. 
Da forma como a luz penetrava recta pelos intervalos de uma divisória atijolada e parecia sustentar errantes partículas de pó pela manhã.

O mesmo pássaro pipilava com exactidão a mesma melancólica melodia, na aurora e no crepúsculo. 
Carros por toda a parte, da minha janela lojas ladeadas de diferentes metiérs, café, drogaria, vestuário, talho, desporto, clínica veterinária, fotógrafo, ginásio, oficina. Nestes dias conjecturo agências bancárias e imobiliárias, como de resto por toda a parte.

Lembro-me da feira que se realizava em frente, várias vezes por semana, de manhã, num pequeno descampado. Como se chamava mesmo aquela senhora gorda de óculos ?... lembro-me de fornecer o caldo verde, cortado na hora, e outros hortícolas. As pessoas circulavam com trolleys carregados.

Lembro-me da praça, essa arena monstruosa e frenética. Da estrada de Benfica, o vislumbre dessa outra casa que era a igreja. Mais à frente ficava a pediatra, depois de uma casa de gelados que nunca percebi se fechou, fui lá duas vezes mas sempre ficou no meu imaginário, o meu primeiro gelado de copo e colher. Ao lado a fiel churrascaria de frangos, pouco à frente a barbearia onde cortei pela 1ª vez o cabelo. Ainda antes da pediatra. 

Ramalhete de toldos e nomes cujo arranjo ainda trago impresso na memória.

Papelarias, lojas de ferragens, cafetaria e têxteis. Lojas escuras que nunca  entendi. 

Muita coisa que não entendia nem tentava, delegava para os adultos. 

Lá à frente, a sapataria Guimarães. Mesmo perto da paragem onde recebi o 1º beijo apaixonado... 
Incrível como gostava dela. Pensei que não chegava a casa vivo. Sempre acreditei que quando Deus nos dá algo que queremos muito somos cobrados com juros.
Era um preço justo pelo o quanto eu queria esse beijo.

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