segunda-feira, 21 de janeiro de 2013



Sempre estive distante, observando o mundo como uma margem desde para lá das rebentações, sacudido pelas hesitações do mar. Atrás, a margem negra e misteriosa da Morte. Cada vez mais cercana e ubíqua.


Espírito competitivo, nunca tive nenhum, se se implica vencer para além de vontade. A pressão do peso das expectativas paralisava. Sempre que tinha de ganhar, perdia. Como se a importância que finalmente decidia atribuir invocava hordas de demónios castradores.

Estranha sina, eu digo. Pois se na descontracção ressaltava algum talento, quer no desporto quer no raciocínio, quando era a contar eu era, invariavelmente, o pior.


Tentei esconjurar as estranhas amarras. Maldição ou não, nunca se dissipou. Talvez desdita por uma outra vida passada em soberba.


Eu sou um perdedor nato.


Pior que isto, considero que tenho a faculdade de arrastar outros para a desfortuna.


Oportunamente, eu diria, com pouca ou nenhuma empresa da minha parte, o amor ia surgindo, como enseadas de água translúcida onde a minha fátua jangada de fiapos serenamente ancorava, para que eu não me perdesse na dilacerante introspecção e solidão.


Como ela surgiu está para além de qualquer explicação, qualquer coincidência. Se me detivesse por dias e semanas a conceber a ideia de alguém que me fosse perfeito estaria sempre em defeito.


De olhar sempre puro, o seu sorriso é o de uma criança presenteada. Os seus gestos, a delicadeza e a precisão de um pintor em êxtase. A sua generosidade é uma margem congregada e sem meandros, a sua bondade é a vastidão do azul-céu.


Veio para me salvar.

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