Sempre
estive distante, observando o mundo como uma margem desde para lá das
rebentações, sacudido pelas hesitações do mar. Atrás, a margem negra e
misteriosa da Morte. Cada vez mais cercana e ubíqua.
Espírito
competitivo, nunca tive nenhum, se se implica vencer para além de vontade. A
pressão do peso das expectativas paralisava. Sempre que tinha de ganhar,
perdia. Como se a importância que finalmente decidia atribuir invocava hordas
de demónios castradores.
Estranha
sina, eu digo. Pois se na descontracção ressaltava algum talento, quer no
desporto quer no raciocínio, quando era a contar eu era, invariavelmente, o
pior.
Tentei
esconjurar as estranhas amarras. Maldição ou não, nunca se dissipou. Talvez
desdita por uma outra vida passada em soberba.
Eu sou um
perdedor nato.
Pior que
isto, considero que tenho a faculdade de arrastar outros para a desfortuna.
Oportunamente,
eu diria, com pouca ou nenhuma empresa da minha parte, o amor ia surgindo, como
enseadas de água translúcida onde a minha fátua jangada de fiapos serenamente
ancorava, para que eu não me perdesse na dilacerante introspecção e solidão.
Como ela
surgiu está para além de qualquer explicação, qualquer coincidência. Se me
detivesse por dias e semanas a conceber a ideia de alguém que me fosse perfeito
estaria sempre em defeito.
De olhar sempre
puro, o seu sorriso é o de uma criança presenteada. Os seus gestos, a
delicadeza e a precisão de um pintor em êxtase. A sua generosidade é uma margem
congregada e sem meandros, a sua bondade é a vastidão do azul-céu.
Veio para me
salvar.
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